Fidel si, Fidel no: Ramonet x Montaner
Frei Betto   
Domingo, 25 de Febreiro do 2007

A revista Foreign Policy promoveu um debate entre Ignacio Ramonet, editor do Le Monde Diplomatique, e Carlos Alberto Montaner, jornalista anticastrista de Miami, sobre o tema: "O que Fidel fez por Cuba?".

[Agência Carta Maior]

A partir da doença de Fidel, a edição de fevereiro/março da revista Foreign Policy promoveu um debate entre Ignacio Ramonet – editor do Le Monde Diplomatique e autor do mais importante livro sobre Fidel, com 100 horas de entrevistas com o lider cubano, “Biografia a duas vozes” (Boitempo Editorial) – e Carlos Alberto Montaner – jornalista anticastrista de Miami, incluído na lista de jornalistas pagos pelo governo dos EUA, que costuma ser publicado pelo jornal Estado de São Paulo. Foi colocada a questão: O que Fidel fez por Cuba? A cada artigo de Montaner vinha a réplica de Ramonet, em um total de 4 cartas de cada um. Transcrevo trechos da correspondência:

I. Montaner: “O comunismo decepcionou a Cuba”

“A morte de Fidel Catro será o ponto de partida de uma série de mudanças políticas e econômicas parecidas com as que se produziram na Europa.” “Mesmo se sua ideologia é o comunismo, pertence à mesma espécie antropológica que Francisco Franco na Espanha ou Rafael Trujillo na República Domunicana.” “...o povo cubano sabe que o sistema criado por Castro fracassou. Enfrenta-se diariamente com a realidade de que o comunismo agravou todos os problemas materiais fundamentais de Cuba até o limite do desespero.” “Cuba pertence à civilização ocidental. Faz parte da América Latina e não tem sentido que seu governo siga mantendo ao país isolado do seu entorno, de suas raízes e de sua evolução natural. Afinal, as ditaduras da América Latina, tanto as de esquerda (Velasco Alvarado no Perú), como as de direita (Augusto Pinochet e os regimes militares da Argentina, do Brasil e do Uruguai), foram substituídas por governos legitimados nas urnas.” “Eu predigo uma mudança pacífica baseada em um acordo entre os reformistas do regime e os democratas da oposição, dentro e fora da ilha.”

I. Ramonet: “O futuro de Cuba está aquí”

“O presidente Fidel Castro não está exercendo seu cargo desde julho; isto é, faz mais de seis meses que existe o depois de Fidel. E, no entanto, não aconteceu nada.” “À diferença da Hungria, as grandes reformas cubanas não são produto de idéias alheias impulsionadas por tropas estrangeiras levadas por veículos soviéticos. Nasceram de um movimento popular em que se uniram as esperanças de camponeses, operários e inclusive profissionais da pequena burguesia cubana.” “Negar essa característica nacional é ignorar várias dimensões essenciais do regime. E é não compreender por que, 15 anos depois da desaparição da URSS, o sistema cubano continua de pé.” “Durante os últimos 10 anos o crescimento médio anual do PIB cubano foi de aproximadamente 5% ao ano, um dos maiores da América Latina. Em 2005 o país cresceu 11,8%, incluindo os serviços sociais e deve ter tido um crescimento igual em 2006. Pela primeira vez na sua história este país não depende de um sócio preferencial, como havia dependido sucessivamente da Espanha, dos EUA e da URSS. É mais independente que nunca. Com uma distinção tão pouco frequente e tão duramente conquistada, não parece provavel que os cubanos vão inverter esse rumo.”

II. Montaner: “Os cubanos são pobres e estão escravizados”

“A razão pela qual o comunismo não caiu em Cuba, da mesma forma que na Coréia do Norte, é a repressão total. Trata-se de um tipo de opressão totalmente ligada a um homem que está morrendo. Quando ele desaparecer, também desaparecerá grande parte do medo que seu regime inspira no povo. Por cima das diferenças políticas, todos os seres humanos têm as mesmas aspirações. Preferem a liberdade à opressão, os direitos humanos à tirania, a paz à guerra e querem que melhorem suas condições de vida e as de suas famílias.” “Quanto à ideia de que a ilha é hoje mais independente que nunca, é ridícula, dado que grande parte do crescimento econômico de que se fala está impulsionado pelos 2 bilhões de dólares anuais propiciados pela Venezuela.”

II. Ramonet: “O invejável histórico de Castro”

“Você tem que deixar de observar a ilha através de um prisma ideológico e de tergiversar os dados para que se ajustem a seus esquemas preconcebidos.” “Nenhuma organização séria nunca acusou Cuba de levar a cabo desaparições, execuções extra-judiciais, nem torturas físicas aos detidos .Não se pode dizer o mesmo dos EUA, em seus cinco anos de guerra contra o terror. Não existe um único caso desse tipo em Cuba. Ao contrário, o regime representa a vida. Conseguiu aumentar a esperança de vida e reduzir a mortalidade infantil. Como escreveu o colunista do The New York Times, Nicholas Kristol, em um artigo de 12/01/2005, “se os EUA tivessem um índice de mortalidade infantil tão baixo como o de Cuba, se salvariam a 2.212 crianças da morte por ano.”

III. Montaner: “O final de um triste capítulo”

“O povo cubano recordará a era do comandante com tristeza. Deixa como legado um catálogo de como não governar.” “Deveríamos confiar no método democrático, no império da lei, no mercado e na propriedade privada como fazem os países mais prósperos e felizes da Terra.” “Em suma, com a morte do comandante devemos nos esfoçar para ser uma nação normal, pacífica e moderna, não um delirante projeto revolucionário empenhado em mudar a história do mundo.”

III. Ramonet: “Ver a verdade”

“E se lhe preocupam os direitos humanos, como pode negar que Cuba, um país pequeno, é quem mais fornece ajuda médica a dezenas de nações pobres do mundo? Há aproximadamente 30 mil médicos cubanos trabalhando gratuitamente em mais de 30 países. Proprocionalmente seria como se os EUA mandassem 900 mil médicos ao Terceiro Mundo. Só a Missão Milagre, que oferece operações gratis de catarata aos pobres da Venezuela, da Bolívia e da América Central, devolveu a visão a mais de 150 mil pessoas.”

IV. Montaner: “Cuba libre”

“Julgar uma ditadura que leva meio século sendo incompetente e atroz pelas operações de catarata que realiza é o argumento fascista que costumam empregar os apologistas de Franco: sua ditadura foi positiva porque os espanhóis podiam comer três vezes ao dia.” “A ditadura de Castro foi boa, nos enteiramos agora, porque mandou médicos ao Terceiro Mundo.”

IV. Ramonet: “Vida Fidel!”

“O apartheid sul-africano não começou a desmoronar até que suas tropas de elite caíram derrotadas em dezembro de 1986 em Cuito Canavale, o Stalingtrado do apartheid, não pelas forças estadunidenses, mas pelos soldados cubanos. Foi isto que levou a Nelson Mandela, um ícone do nosso tempo, a dizer que a revolução de Fidel Castro havia sido “uma fonte de inspiração para todos os amantes da liberdade”. Ele também, como tantos cubanos que chorarão a morte de seu lider, costuma dizer sempre: “Viva o camarada Fidel Castro!”.

Frei Betto
Sobre o autor ou autora:
Teólogo e xornalista.
Ler máis >>
 
< Ant.   Seg. >